18.1.12

Nelson Trad, o ponta-esquerda

Colégio Dom Bosco, Campo Grande, 1947/48. O Time de futebol do Dom Bosco era a verdadeira seleção do Sul de Mato Grosso. O Olavo Ramos, filho de ervateiros da região da Emboscada em Ponta Porã era o Goleiro. Seu irmão Mushiito, o ‘pajarilho’, hoje médico no Rio de Janeiro fazia a ala esquerda do ataque. Um tanque de guerra o Ubaldo Barem, era o centro-avante tendo na extrema direita o Pereréca – José Caminha, dois pontaporanenses de nascimento. Nelson na ‘extrema esquerda’ completava aquele ataque.

O Pepino, melhor goleiro do Estado, tremia ao jogar contra estes atacantes. Nesse tempo saudoso eu também comungava naquele ginásio interno. O carisma de Dom Bosco e o futebol cultivaram grandes e duradouras amizades. O Gabura já partiu com Jaquinha, Munir ‘Cebola’, Ademar Roncatti, Aley Ale, Chico Giordano, Pedro Araújo, Euler Azevedo, bem como nossos mestres Luiz Cavallon, Padre Angêlo Venturelli, que hoje recebem no time lá de cima o companheiro que acaba de nos deixar.

Após as escaramuças na UNE em 50/51 passamos longos anos distantes, reencontrando-nos na memorável campanha política de 1965/66 quando em Ponta Porã fui visitado pelo ‘extrema-esquerda’ então um dos idealizadores da candidatura de Pedro Pedrossian na coligação PTB-PSD contra as oligarquias dominantes. Participamos e vencemos.

Com Nelson Trad na Justiça e este produtor rural na assessoria sulista da Pasta da Agricultura ajudamos a reestruturação do Estado. Na criação do Mato Grosso do Sul tínhamos a palavra empenhada do todo-poderoso Ministro Golberí do Couto e Silva de que o vencedor na disputa pelo Senado – 1978 – seria nomeado o primeiro governador. Nosso time venceu mais uma vez, porém aquela palavra não foi honrada.

Finalmente em novembro 1980, respeitando as urnas, a verdade foi restabelecida com a posse de Pedrossian no governo e o nosso ‘ponteiro esquerdo’ já eleito Deputado Constituinte assumindo seu lugar na Pasta da Justiça, e coube-me a honra de na Casa Civil atender ao agronegócio do interior. O MS enfim começou a existir, honrosamente.

Desde aqueles anos que precederam ao Estado Novo de Vargas, com 40 milhões de habitantes o Brasil foi se transformando nesta babel de quase 200 milhões. Na Lapa e Cinelândia ou nos bares do Catete onde nos fins de tarde saboreávamos um “chope” com o Mustafá Esgaib sem preferência política, e Ubaldo Barem com Amilcar Lima seguidores da UDN de Fernando Correa da Costa, Fragélli e Cia. o “papo” era saudosista e ameno e versava sobre as tardes da Rua 14 de Campo Grande.

Em futebol sempre discordamos. No Rio ele era Botafogo doente, e eu um torcedor do Fluminense. No Mato Grosso eu era Operário e o Nelson um comercialino convicto. Nessa rua central o Bar Bom Jardim e o Bar Bom Gosto circundavam o Bilhar Sobrado. Este palco inesquecível marcou muitos “flertes” e muitas namoradas, transbordando os sentimentos políticos de nossa juventude, pós-escola e início da vida profissional.

Nelson Trad, um político ético, seguiu a carreira, fazendo o que gostava e amava. Iniciou sua família nesse caminho árduo de defender os direitos da comunidade onde vive, legando seu passado de mãos limpas para os filhos. Tenho certeza que esta bandeira das mãos limpas vai continuar hasteada.

* agroney@bol.com.br



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